Veneza, 1966

A menção honrosa de Chico da Silva na 33ª Bienal de Veneza (1966), a imprensa da época e as viagens imaginárias do pintor da Escola do Pirambu, em Fortaleza.

Em junho de 1966, o pintor que representaria o Brasil em Veneza morava num casebre à beira da praia do Pirambu, em Fortaleza, no bairro que daria nome à Escola do Pirambu. O Globo de 9 de junho anunciou o vernissage de suas aquarelas na Petite Galerie, no Rio, e lembrou que o crítico Clarival do Prado Valadares o tinha escolhido como um dos três pintores da delegação brasileira à Bienal de Veneza. Três dias depois, o Correio da Manhã publicou uma entrevista longa. Chico da Silva reclamou de quem comprava suas obras “por uns poucos mil cruzeiros” para revendê-las “no País e exterior, por somas fabulosas”, disse temer que o mar levasse a casa e deu 1928 como ano de nascimento, “segundo êle avalia”, na ressalva do repórter. A data muda a cada versão dele; o que os documentos sustentam está na biografia.

Recorte de jornal: colunas de texto em torno da manchete escalonada e de uma fotografia com a legenda "Sem teto", o pintor de perfil com um cigarro.
"Pintor diz que sua arte é explorada por dono de galeria". Entrevistado dias antes da abertura de Veneza, Chico descreve o casebre do Pirambu e quadros revendidos por muito mais do que recebeu; o box registra o relato do próprio pintor de um nascimento no Acre, em 1928 pela conta dele.Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 de junho de 1966, p. 13. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Uma vaga contestada

A escolha chegou contestada ao embarque. Roberto Galvão, em Chico da Silva e a Escola do Pirambu, conta que, durante uma mostra carioca de 1966 com obras adquiridas do marchand Henrique Bluhm, Dalva da Silva, mulher do pintor, denunciou à polícia de Fortaleza a existência de quadros falsos entre as peças expostas, e que Chico desmentiu a própria esposa e reconheceu publicamente a autoria de tudo. Valadares passou a sofrer pressão para tirá-lo da delegação, pressão que Galvão atribui ao preconceito contra a arte primitiva e a interesses de mercado. O crítico o manteve e, pelo próprio relato, gastou a temporada guardando Chico longe dos jornais. As oficinas por trás do episódio têm história própria, contada em Fábrica de quadros.

Quatro painéis, doze guaches

O que aconteceu em Veneza se conhece sobretudo por uma carta que Valadares escreveu em 23 de setembro de 1966, transcrita por Galvão. O crítico conta que foi combatido por brasileiros contrários à presença de Chico, que aos primitivos restou um espaço mínimo e que quatro painéis foram pendurados. Às ocultas, ele mostrou a cinco membros do júri o que não estava exposto: doze guaches do Museu de Arte do Ceará. Veio a citação: “O prêmio, Menção Honrosa, foi um fato inédito na história de Veneza, criada em 1895, em relação a um primitivo”, escreveu Valadares. Consultada, a comissão brasileira negou o beneplácito; o júri manteve a menção assim mesmo, ao lado das concedidas ao espanhol Juan Genovés e ao polonês Skawsky, também sem apoio oficial de seus países, ainda segundo a carta. Chico não embarcou. Os quadros cruzaram o Atlântico sem ele.

O guache, técnica dos doze trabalhos que ficaram fora das paredes, seguiu no centro do que ele fazia. Rinha de Galos (1969), guache da Coleção João Cunha, é o tipo de quadro que circulava com o nome dele naqueles anos: dois galos frente a frente sobre um fundo amarelo-dourado, garras erguidas quase se tocando, a plumagem armada em pontos e traços de vermelho, azul, verde e branco.

Rinha de Galos, Chico da Silva, 1969
Rinha de Galos (1969), Chico da Silva

De menção a prêmio

A imprensa brasileira engordou a citação quase de imediato. Uma legenda do O Globo, em 22 de junho de 1967, dizia que ele “acaba de ser premiado na Bienal de Veneza”. Em 1973 o mesmo jornal foi exato e registrou a “Menção Honrosa da XXXIII Bienal de Veneza”. Em novembro de 1977, voltou a falar do prêmio conquistado onze anos antes. Em 1974, também no O Globo, o crítico Iaponi Araújo o listou entre os pintores primitivos da arte popular brasileira, categoria que fez questão de separar dos ingênuos, os naïfs. A menção crescia na boca dos outros. Na boca do próprio pintor, cresceu mais.

As viagens imaginárias

Depois de 1966, Chico passou a narrar viagens. Galvão resume: “Sem sair de casa e do País, viajou pelo mundo”, Alemanha, Estados Unidos, Paraguai, Indochina, Vietcongo e “o fantástico país de Juberlano”. Dizia ter sido recebido pela Rainha Elizabeth no Palácio de Buckingham. Contou ao O Povo, em agosto de 1982, numa fala que Galvão recolheu, que Chabloz o levara a Paris, onde conheceu De Gaulle, “um homenzarrão”. À revista ELE/ELA, em 1976: “Já fui na Inglaterra, Alemanha, no Vietcongo, nos Estados Unidos… Já fui na Juberlano.”

O desmentido é material. Durante o escândalo de autoria de 1969, um repórter do Jornal da Tarde anotou, num trecho que Estrigas preservou: “Mostra o passaporte para provar. Está em branco, sem o visto de nenhum país.” Em novembro de 1977, um repórter do O Globo viu o mesmo documento, “um passaporte vencido em 1967 e totalmente em branco nas páginas de visto de saída”. Nenhuma saída registrada.

Posta ao lado da pintura, a fabulação é o mesmo trabalho. Chico não relatava o que viveu: inventava mundos, na arte naïf que os críticos tentavam enquadrar e na vida que contava aos repórteres. Juberlano é país exatamente como seus dragões são bicho.

A viagem que as obras fizeram

Houve viagem de verdade, e ela pertenceu aos quadros. Jean-Pierre Chabloz tinha levado seus guaches à Europa muito antes de Veneza: Genebra em 1949, Lisboa em 1951, Paris em 1952. Essa história está em Chabloz e a descoberta. Em 1966 as obras cruzaram o oceano de novo, e de novo sem ele. O que voltou a Fortaleza foi a fama. Parte do que ela pôs em circulação está hoje nas pinturas da coleção: guaches sobre papel, acrílicas sobre tela, a mesma fauna que viajou no lugar do pintor.