Os últimos anos

Os últimos anos de Chico da Silva (1970–1985): internações em Fortaleza, a produção tardia, a Escola do Pirambu e a morte em 6 de dezembro de 1985.

Em novembro de 1970, O Estado de S. Paulo anunciava trinta e cinco telas na galeria Portal, na avenida Paulista, e descrevia o pintor: terno de linho branco, dentes de ouro, analfabeto, falando por parábolas, chamando advogado de “homem de caneta” (5/11/1970). Quatro anos depois da menção honrosa na 33ª Bienal de Veneza, Chico da Silva ainda enchia galeria em São Paulo; o perfil encontrava sua pintura onde sempre esteve: nas lendas da infância, cheias de bichos e monstros. Restavam quinze anos; a imprensa registrou quase todas as estações.

Dragão e Serpente, Chico da Silva, 1973
Dragão e Serpente (1973), Chico da Silva

A assinatura sem o pintor

Na virada da década, a mão por trás da assinatura muitas vezes não era a dele: a economia de ateliê descrita em A fábrica de quadros abastecia os marchands com os jovens pintores da Escola do Pirambu. Quando O Povo o reencontrou pintando, em junho de 1976, escreveu que ele abandonara a pintura em 1970, “quando passou simplesmente a assinar quadros, mediante o recebimento de alguns trocados” (O Povo, 21/6/1976). Um mês antes, o filho Carlos Roberto dissera ao jornal que a última pintura do pai, o busto de uma mulher, era de 1974 (13/5/1976). “Minha ruína começou quando morreu Dalva”, disse ele sobre a primeira mulher, morta por volta de 1974 (Tribuna do Ceará, 1976, recolhida por Roberto Galvão).

1976: o ano dos hospitais

Em 4 de maio de 1976 deu entrada na enfermaria da Escola de Aprendizes Marinheiros, em Fortaleza, com cirrose hepática (O Estado de S. Paulo, 14/5/1976). O Povo abriu o caso com a manchete “Chico da Silva está na miséria” e a fala do Frei Antônio Memória: o pintor estava “morrendo à míngua” (13/5/1976). Em 1º de junho, Edmar Morel publicou no mesmo jornal “A Máfia destruiu Chico da Silva”, o relato de um ateliê sem pincel e sem tinta; quem o conhecia apenas como “o Chico Melado ou Chico Pau d’Agua”, escreveu, ignorava que o nome constava das enciclopédias. Em meados de junho, estava inconsciente na UTI do Hospital das Clínicas (O Estado de S. Paulo, 20/6/1976). No dia 21, o jornal o fotografou de roupa branca de interno, mão trêmula, riscando monstros marinhos em cartolina: a primeira pintura, dizia, em seis anos. Em setembro vieram o delírio, a transferência para a Casa de Saúde Antônio de Pádua e o diagnóstico de psicose alcoólica, sequência que Roberto Galvão reconstitui no catálogo Do delírio ao dilúvio.

Página de jornal: tira de cinco retratos de um homem magro gesticulando ao falar, manchete grande e fotografias da companheira, do filho segurando um retrato pintado e de um médico da Marinha.
"Chico da Silva está na miséria": internado com cirrose na enfermaria da Escola de Aprendizes Marinheiros, o pintor fala ao longo da tira de retratos de Alcebíades Silva; o filho Carlos Roberto segura a que a página apresenta como sua última pintura.O Povo, Fortaleza, 13 de maio de 1976, p. 6. Acervo O Povo.

Vendendo saúde

Saiu da clínica em agosto de 1977, aos cuidados de Agostinho Ramirez e Francisca Margarida, e vendeu em Brasília vinte dos quarenta quadros que levou (O Povo, 31/8/1977). “Estou vendendo saúde e não vou voltar mais ao Pirambu”, disse na volta. A retomada foi acidentada. Em março de 1978 abriu sua primeira individual paulistana em cinco anos (O Estado de S. Paulo, 14/3/1978); em abril, vinte e oito daquelas telas sumiram com a dona da galeria e ele foi à polícia (O Povo, 3/4/1978). Em agosto, o prefeito de Fortaleza lhe devolveu, reformada, a casa-ateliê da Leste-Oeste, doada pelo poder público em 1974, e ele preparava doze telas para a I Bienal Latino-Americana (O Povo, 13/8/1978). Galvão acrescenta a Medalha Anchieta, da Câmara Municipal de São Paulo, e três exposições em 1979 a preços que qualifica de aviltados. Em 1980 o pintor levou os falsificadores à Justiça: o juiz nomeou como peritos Henrique Barroso e Roberto Galvão, o processo parou, e Chico passou a autenticar as telas em cartório (Galvão, Chico da Silva e a Escola do Pirambu). No mesmo ano, Jean-Pierre Chabloz, o descobridor de 1943, atacou o primitivismo brasileiro na imprensa carioca; a reação em Fortaleza (O Estado de S. Paulo, 9/11/1980) contabilizava, pela crítica Jane Lane, mais de quinze meses de internação psiquiátrica e três extremas-unções.

A mão esquerda

Uma trombose em fevereiro de 1981 o deixou de cama por mais de oito meses e paralisou seu lado direito. Era canhoto e continuou pintando (Galvão, Do delírio ao dilúvio). Por intermédio de Luíza Távora, então primeira-dama do Ceará, montou uma loja-ateliê no aeroporto Pinto Martins; em junho de 1983 veio, por lei, a pensão vitalícia de dois salários mínimos. Em outubro, O Povo descreveu um homem de fala trôpega que não largava o trabalho e citou o médico: era a arte que o mantinha vivo (13/10/1983). Da mesma reportagem ficou a frase: “Amigo é como mulher, a gente só conserva enquanto tem saúde e dinheiro”. Convalescente, disse-se alguém “saído de um prolongado dilúvio”; Galvão tomaria a palavra para batizar o catálogo da produção de 1977–1982, agora acrílica sobre tela em vez do guache dos anos de Chabloz, o repertório intacto: galos de briga, dragões, peixes. A Coleção João Cunha guarda pinturas desse período final, entre elas os Galos de Briga de 1983 reproduzidos aqui.

Galos de Briga, Chico da Silva, 1983
Galos de Briga (1983), Chico da Silva

Em 28 de março de 1984, o governador Gonzaga Mota levou a Medalha da Abolição, a maior comenda do Ceará, à casa da avenida Heráclito Graça, por causa da saúde do pintor (O Povo, 28/3/1984; O Estado de S. Paulo, 29/3/1984). A casa própria prometida na ocasião saiu no início de 1985, depois do impasse burocrático que O Povo detalhou em outubro de 1984.

6 de dezembro de 1985

Chico da Silva morreu às 3h20 de 6 de dezembro de 1985, na Policlínica, em Fortaleza. O obituário de O Povo transcreveu a ficha de internação: entrada em 2 de dezembro, enfisema pulmonar crônico, depois um acidente vascular cerebral (7/12/1985). Os obituários deram 75 anos; o nascimento nunca teve data firme (estimativas entre c. 1910 e 1922). O corpo foi velado na Casa de Cultura Raimundo Cela e enterrado na mesma tarde no cemitério Parque da Paz, em cova paga pelo Estado, quatro coroas sobre o caixão; a capa resumiu o comparecimento escasso na palavra do governador: ingratidão. O mesmo texto de agência saiu no Estado de S. Paulo e no Jornal do Dia de Cuiabá sob o título “Morreu um dos maiores primitivistas do Brasil”. Ao lado, o jornal estampou frases do pintor compiladas por Roberto Galvão, entre elas o pedido: “Eu só não quero que venham com aquela história de homenagens depois que eu morrer”.

Bloco de primeira página: manchete sobre a morte do pintor e o enterro esvaziado, ao lado de fotografia dele sentado ao ar livre numa espreguiçadeira, pincel na mão, observado por curiosos.
A manhã seguinte: "Ceará perde Chico da Silva e poucos vão ao cemitério". A fotografia, dos anos de fama, mostra o pintor pintando numa espreguiçadeira; o desabafo do governador divide a primeira página com as outras notícias do dia.O Povo, Fortaleza, 7 de dezembro de 1985, p. 1. Acervo O Povo.

Estrigas, que fechou sua biografia de 1988 com o funeral, anota que descobridor e descoberto terminaram lado a lado: Chabloz, morto em Fortaleza em junho de 1984, está no mesmo cemitério. O que veio depois, o retorno lento da obra aos museus e às histórias da arte popular brasileira e da arte naïf, é assunto de Legado e redescoberta. O caminho até aqui, do Alto Tejo aos muros da Praia Formosa, está contado na biografia do pintor.